O general Pazuello estava errado ao dizer que um manda, outro obedece. A verdade é que, no Brasil, um manda e outros obedecem. Bolsonaro tem razão: é o “seu gordinho”, é o “seu Exército”, são os “seus obedientes”.

Há, claro, alguns problemas. O general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, já dizia, antes mesmo que Pazuello ficasse livre de punições, que a indisciplina tinha de ser punida. Lembremos que Michel Temer, muito mais suave que Mourão, já mostrou que vice tem força, sim. Mourão está na reserva, mas é general e conhece a caserna: “Se nosso governo falhar, errar demais, não entregar o que promete, essa conta irá para as Forças Armadas”.

Indisciplina é contagiosa. Um general da ativa de três estrelas vai a um comício, não acontece nada, um terceiro sargento da ativa, Luan Ferreira de Freitas Rocha, já se manifesta: numa live do deputado Major Vítor Hugo, que só pisca os olhos quando Bolsonaro o autoriza, reivindicou maior salário e convocou militares em geral a participar do movimento. Major Vitor Hugo, fidelíssimo, jamais tomaria essa iniciativa sem consultar seu chefe.

Um general discreto, como Sérgio Etchegoyen, ou que fez a campanha de Bolsonaro, como Paulo Chagas, ou que foram seus ministros, como Santos Cruz, reclamaram. É óbvio que Pazuello e o sargento seguem o presidente que acaba de mostrar quem manda.

Mas, como dizia Napoleão Bonaparte, pode-se fazer tudo com as baionetas, menos sentar-se nelas.

O grande mudo

No Brasil, as Forças Armadas são conhecidas como O Grande Mudo: têm poder, mas não se manifestam. Isso é um problema: sempre houve quem se sentisse seguro sem saber o que as baionetas calavam. O marechal Deodoro era amigo de D. Pedro II, dizia dever-lhe favores. E o derrubou. O marechal Dutra foi ministro da Guerra durante a ditadura de Getúlio Vargas, de quem era íntimo colaborador. E o derrubou. Quem deu o xeque-mate em Jango Goulart foi seu amigo Amaury Kruel, comandante do 2º Exército. Sustentar governos dá uma tremenda coceira nos dedos que seguram um gatilho.

Ele conhece

Ninguém cometerá a injustiça de considerar Gilberto Kassab um político de oposição. Não é, nunca foi. Conversa com todos, é tremendamente hábil; seu raciocínio político é impecável, jamais contaminado pela emoção ou pela paixão. Ao longo dos anos, aprendi a ouvi-lo com respeito: conhece o jogo e, quando fala, fala com franqueza. Kassab acha que a decisão do Exército de isentar Pazuello de punição “é muito perigosa”, e que “nenhum país pode prescindir de normas nas Forças Armadas”. Sua análise: “Os mais generosos podem dizer que há um impasse. Os mais críticos vêm que a situação chegou a um nível temerário. Eu me incluo no grupo dos mais críticos”.

Detalhe importante: Kassab é o organizador e presidente do PSD, um dos principais partidos do Centrão. O Centrão é a base política de Bolsonaro, é o grupo que o defende do impeachment. Se Kassab se afasta, acende-se o sinal amarelo: o Centrão apoia Bolsonaro, mas jamais afunda com o navio.

Lado bom

Apesar da Covid, o Brasil ensaiou uma pequena recuperação econômica no último trimestre. Nada de fantástico, mas é um retorno ao crescimento. A economia voltou ao nível de 2019. O crescimento é puxado, como sempre, pelo agronegócio e pela exportação de minérios; e, também, pela grande alta do preço dos nossos produtos de exportação. Mas o crescimento ainda não se reflete no emprego: isso só ocorre quando o faturamento extra é investido para aumentar a produção, o que demora alguns meses. Mas é um bom sinal.

Lado ruim

O aumento das exportações de milho e soja encarece o óleo de cozinha e as rações no Brasil; o aumento das exportações de carne eleva não só o preço interno da carne de boi como provoca a alta do consumo (e o encarecimento) de substitutos, como o frango e o porco. Isso, somado ao desemprego, já levou a uma baixa no consumo de proteínas animais. A salvo dos aumentos, só os ovos. O arroz já tinha subido muito e se mantém, mas pode subir mais.

Pensando no agro

Nesse sábado, um evento importante para a agricultura brasileira: uma discussão sobre os rios voadores da Amazônia (a farta umidade trazida pelos ventos para o restante do Brasil). The Flying Rivers of Amazon é parte da programação do Fórum Mundial da Água pela Vida, Water World Forum for Life, uma iniciativa da União Europeia para o desenvolvimento agrícola sustentável e o estudo do impacto do agronegócio sobre os mananciais.

O programa foi organizado pelo AgroReset, iniciativa brasileira para estimular negócios sustentáveis. A mediação foi de Finho Levy, CEO e publisher do AgroReset; e participou gente importante, como Carlos Nobre, especialista em Ciências da Terra, Júlio Palhares, pesquisador da Embrapa – e Bela Gil, chef de cuisine e estrela de TV, que divulga a alimentação sustentável.

* Carlos Brickmann é Escritor, Jornalista e Consultor, diretor da Brickmann & Associados Comunicação. Leia o Chumbo Gordo, informação com humor, precisão e bom. Assine a newsletter: chumbogordo.com.br. Curta e acompanhe pelo Facebook. Siga: @CarlosBrickmann  carlos@brickmann.com.br

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