Poucos dos que assistiram Lewis Hamilton conquistar sua centésima vitória na Rússia este ano têm ideia do que era a Fórmula 1 há 70 ou 50 anos.

E, por outro lado, quem viu Juan Manuel Fangio conquistar o pentacampeonato mundial e depois Michael Schumacher ser heptacampeão, imaginou que não fosse assistir nenhum outro ser sete vezes campeão e nem conquistar 100 vitórias em GP e mais de 100 pole-positions.

Sinto-me entre os poucos felizardos que puderam e ainda podem apreciar tudo isso e, mais importante, compartilhar com quem não teve a oportunidade um pouquinho da minha convivência com Juan Manuel Fangio.

Para isso, resgato uma entrevista que fiz com ele, há quase 51 anos. O argentino foi um campeão diferente, sempre elegante e solícito, sem nunca perder a modéstia. Naquela época, eu não imaginava ser possível a algum outro piloto conquistar tantos títulos.

Além das virtudes de um supercampeão, Fangio era um homem cujo prestígio internacional jamais alterou a sua forma modesta de comportamento, especialmente no tratamento pessoal.

Tornou-se o melhor piloto dos anos 50 e, apesar da fama, nunca demonstrou arrogância e sempre manteve a forma suave de expressão e dedicou atendimento cortês aos torcedores que o idolatraram. Fosse para um pedido de autógrafo ou de uma foto a seu lado.

Nas oportunidades que tive de acompanhar o tratamento que deu a fãs e torcedores, sempre surpreendeu em atenção e respeito a quem a ele se dirigisse.

Agora, uso um comentário que ele me disse, em janeiro de 1971, na entrevista que me concedeu e que comprovou as suas virtudes de simplicidade e elegância.

“Ninguém pode dizer que fui melhor que Ascari, Villorezzi e outros da minha época. E menos ainda que fui superior a Jim Clark; que Jim Clark foi melhor que Jackie Stewart ou que outros excelentes pilotos atuais”, declarou Fangio, justificando que os carros evoluem velozmente em todos os sentidos.

E deu como exemplo algumas inovações lembrando que no seu tempo os carros não tinham freio a disco, eram muito altos, os pneus e as rodas eram mais finos e que os pilotos conduziam sentados, em posição muito mais próxima de modelos de passeio.

O velho campeão não concordou com os comentários feitos a seu respeito quando o classificavam como o melhor piloto do mundo. E ele justificava, de forma simplificada, que teve mais sorte ou mais condições que os outros, o que lhe possibilitou maior número de vitórias.

No final de sua carreira, após conquistar cinco títulos mundiais foi convidado pelo Automóvel Clube Argentino a desempenhar a função de coordenador-geral das relações com a FIA – Federação Internacional do Automóvel – e dos contatos com as equipes internacionais.

Nessa atividade, manteve a Argentina no cenário internacional, idealizando uma temporada de Fórmula 3 – que contou com um carro brasileiro pilotado por Wilson Fittipaldi Júnior – e incluiu o país no calendário do Campeonato Mundial de Esporte Protótipos e, também, da Fórmula 1.

Fangio reconheceu que teve alguns aborrecimentos nos contatos que mantinha com a FIA, quando sugeriu o estabelecimento de peso mínimo para os carros, para maior segurança nas pistas, quando a entidade decidiu mudar o tipo de motor para os carros da Fórmula 1 para neutralizar o excesso de potência.

Com a sua experiência, muitas vitórias e cinco títulos de campeão mundial, a serviço da federação argentina, o velho campeão costumava reunir os jovens pilotos para transmitir exemplos de segurança, respeito aos regulamentos e, principalmente, aos adversários.

Aos jovens, insistia sempre que com a evolução do fluxo aerodinâmico os automóveis correm demais, tudo neles tem que ser medido e estudado. E que nos modernos carros os pilotos precisavam tomar excessivo cuidado porque se em uma curva o carro ultrapassar o seu limite de aderência ao solo, ninguém será capaz de segurá-lo.

Uma vez, Fangio declarou que foi admirador do brasileiro Chico Landi e sempre cultivou a amizade com os brasileiros. Em uma vinda ao Brasil, nos anos 60, foi convidado por Jorge Lettry, chefe de competições da Vemag, para ir ao Autódromo de Interlagos conhecer o Mickey Mouse, um DKW Vemag com distância encurtada de 2m45 para 2m10, uma experiência de Jorge Lettry para ter um carro rápido em pistas travadas, principalmente em circuitos de rua.

Fangio atendeu ao convite e teve a oportunidade de experimentar o carrinho, que foi o primeiro com tração dianteira, motor de dois tempos e sem freio-motor que teve a oportunidade de conduzir.

Fangio foi campeão mundial nos anos de 1951, 1954, 1955, 1956 e 1957. Nasceu no dia 24 de junho de 1911, na cidade de Balcarce, e faleceu no dia 17 de julho de 1995, vítima de falência renal e pneumonia.

O automobilismo perdeu um símbolo importante e também um ser humano despojado de vaidade que contribuiu muito para o automobilismo internacional, e ajudou a incluir a América do Sul no cenário mundial, especialmente a Argentina e o Brasil.

No próximo episódio, vou contar outra contribuição de Fangio para o automobilismo sul-americano, com o relato da Missão Argentina, uma loucura idealizada por ele e tecnicamente comandada por Oreste Berta, dois ídolos do automobilismo argentino.

*Esta e outras histórias narradas pelo jornalista Luiz Carlos Secco você pode ouvir no podcast Muito Além de Rodas e Motores. Acesse: https://soundcloud.com/user-645576547/fangio-a-verve-de-um-eterno-multicampeao?si=8ba2519698c94db0b822beb21452d8e8

*Luiz Carlos Secco trabalhou, a partir de 1961 até 1974, na empresa S.A. O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, além da revista AutoEsporte. Posteriormente, transferiu-se para a Ford, onde foi responsável pela comunicação da empresa. Com a criação da Autolatina, passou a gerir o novo departamento de Comunicação da Ford e da Volkswagen. Em 1993, assumiu a direção da Secco Consultoria de Comunicação.

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