Depois de 37 anos de participação de mercado e atingir o total de 4.379.356 de unidades produzidas no Brasil e vendidas no continente sul-americano, o Fiat Uno chega ao final de uma história de pioneirismo e passa a ocupar um posto na galeria dos principais produtos da indústria automobilística nacional.

A importância do modelo se confirma pela própria Fiat, que decidiu organizar uma saudosa despedida com a produção de uma série especial denominada Ciao em homenagem ao sucesso do carrinho, o Fiat mais vendido no continente sul-americano.

São 250 unidades, com visual diferenciado, marcante e uma série de equipamentos e pintura especial, que darão aos apaixonados proprietários a oportunidade de exibi-los como produto histórico, revelando publicamente a paixão que sentem pelo veículo que, de alguma forma, participou de sua vida. Em adesivos laterais, o carro exibirá o nome Uno Ciao, acompanhado da frase La Storia Di Una Leggenda que, em português, significa a história de uma lenda.

Em agosto de 1984, o Fiat Uno foi lançado no mercado brasileiro introduzindo o conceito de pequeno por fora e grande por dentro, que se tornou conhecido pelo Fiat 147, primeiro modelo da marca italiana que recorreu a cinco gigantes do basketball para produzir um anúncio publicitário que realçou o espaço interno que oferecia. Com seu estilo avançado e inovador, o Fiat Uno inicialmente surpreendeu os consumidores brasileiros que, de forma carinhosa o apelidaram de botinha ortopédica e que acabou conquistando o mercado, principalmente o público feminino.

Com o lançamento do Uno, a Fiat tentava inovar no segmento de compactos, desta vez com um projeto recente. Apresentado na Europa em 1983, o Uno foi lançado no Brasil um ano depois para suceder ao 147. E, com assinatura de Giorgetto Giugiaro, foi um dos carros mais revolucionários da Fiat não só no Brasil, como no mundo.

O compacto tinha um excelente aproveitamento de espaço, ampla área envidraçada e oferecia soluções ergonômicas para o motorista, entre elas o painel com alguns comandos satélites, como do limpador do para-brisa. O desenho quadradinho inovador conferia um coeficiente aerodinâmico (Cx) de 0,35 – enquanto o 147 tinha Cx 0,50, como exemplo.

O Uno brasileiro, contudo, teve de se adequar às condições de nossas ruas e também aos fãs do 147. Na sua plataforma usava elementos do hatch antecessor e a herança mais elogiada foi na suspensão traseira. Enquanto o italiano usava um eixo de torção com molas helicoidais, o Uno brasileiro usava o jogo independente, com feixe de molas transversal.

Na época, como funcionário da Ford, fiquei surpreso com minha filha Fernanda, que se enamorou do Uno em detrimento a um modelo da marca que eu representava.

O Fiat Uno rivalizou-se com o Volkswagen Gol no mercado e disputaram renhidamente a posição de carro mais vendido do País. Com a criação da Autolatina, em 1987, passei a acompanhar essa rivalidade e assisti à disputa entre as duas marcas.

Cada empresa trabalhou com eficiência para promover o seu veículo e, em 1985, um ano após o lançamento do carro no mercado brasileiro, quando trabalhei para a Fiat na agência de publicidade MPM, fui solicitado a planejar uma ação que pudesse ajudar a superar a incerteza de consumidores de cidades do interior do Estado de São Paulo.

Propus a realização de uma gincana para jornalistas, utilizando o kartódromo da cidade de Bauru que reuniu pilotos e jornalistas especializados que empolgaram o público e a repetição da notícia do evento ao longo dos dias seguintes em emissoras de TV local despertou o interesse dos consumidores, repercutindo positivamente nas vendas do automóvel.

O Fiat Uno deu outra contribuição para a marca de origem italiana. Sua plataforma básica serviu para a Fiat ampliar a linha de produtos criando outros modelos e formando uma família, composta das versões sedã de quatro portas Fiat Prêmio, a perua Elba, o Uno furgão e a pick-up Fiorino.

Houve outros acontecimentos que promoveram o automóvel. No Grande Prêmio do Brasil de 1985, disputado no Rio de Janeiro, a Fiat Itália fez o lançamento do Uno Turbo para o mercado mundial e trouxe jornalistas europeus para o evento. Como se tratava de um evento para o mercado da Europa, os jornalistas brasileiros não foram incluídos, mas consegui a liberação de três carros para teste das principais revistas especializadas do Brasil, publicações que ajudaram a reforçar a marca Uno.

Em 1990, o Fiat Uno já consolidado no mercado brasileiro e reconhecido como o maior responsável pelo crescimento da marca no país ganhou uma grande força de venda: o presidente Fernando Collor de Mello e a ministra da economia, Zélia Cardoso, anunciaram uma inédita redução tributária para automóveis com motor até 1.000 cm³, o que criou um segmento que chegou a representar mais de 60% do mercado.

A Fiat foi muito rápida e, em apenas 60 dias, fez a apresentação do UNO Mille criando o modelo para aproveitar as vantagens de um benefício especial, que isentava o carro do IPI (Imposto de Produtos Industrializados), e tornou o UNO Mille no automóvel mais barato do mercado.

Com a explosão das vendas do Uno Mille, a Fiat deixou a tradicional quarta posição que ocupava no País, passando à vice-liderança do mercado.

Uma fase divertida ocorreu pela disputa do título de carro mais vendido do mercado brasileiro. A cada final de ano as montadoras trocavam informações sobre o resultado de vendas, o que era feito em amistosas conversas telefônicas entre hábeis negociadores de vendas das fábricas.

Mas em um ano a competição ficou muito acirrada porque até o mês de novembro ocorreu um rigoroso equilíbrio entre o Fiat Uno e o Volkswagen Gol.

Diante do equilíbrio, nenhum representante quis ser o primeiro a revelar o resultado atingido por sua marca e manter um clima de suspense. Por isso, o diálogo foi longo e com muita paciência dos dois lados que justificavam as razões para não ser o primeiro a revelar.

Parecia um jogo de truco em que o vencedor é quem souber melhor blefar. O diálogo prolongou-se, mas com a aproximação do encerramento do prazo, os representantes da Fiat concordaram em revelar o registro das vendas do Uno que, ficou ligeiramente abaixo do volume atingido pelo Gol naquele ano. Cabe destacar que, durante 27 anos, o Gol foi o automóvel que atingiu o maior volume de produção no Brasil, com 8.342.260 unidades.

Mas a Fiat não sossegou e continuou a criar atrações. Em março de 2014, lançou o UNO Turbo que se tornou o primeiro carro brasileiro produzido com turboalimentação fornecida pela Garrett, elevando a potência para 118 cv, equivalente à do motor 2.0 litros de aspiração natural, com as vantagens adicionais de redução do consumo de combustível e da emissão de poluentes.

Mantendo o ritmo de evolução, em janeiro de 2020 a Fiat anunciou a formação da Stellantis, que representa a união de 14 empresas automotivas, principalmente a Fiat, Citroën, Jeep, Alfa Romeo e Maserati, lançou novos modelos e fechou 2021 com a liderança do mercado e, de sobra, classificou seis automóveis entre os dez veículos mais vendidos do mercado brasileiro.

Ciao Uno, você fez história na indústria automobilística brasileira e vai deixar saudades. Agora, será líder entre os colecionadores e apaixonados pela marca italiana.

*Esta e outras histórias vividas e narradas pelo jornalista Luiz Carlos Secco você pode ouvir no podcast Muito Além de Rodas e Motores. Acesse: https://soundcloud.com/user-645576547/o-fiat-uno-faz-historia-na-industria-automobilistica-brasileira

*Luiz Carlos Secco trabalhou, a partir de 1961 até 1974, na empresa S.A. O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, além da revista AutoEsporte. Posteriormente, transferiu-se para a Ford, onde foi responsável pela comunicação da empresa. Com a criação da Autolatina, passou a gerir o novo departamento de Comunicação da Ford e da Volkswagen. Em 1993, assumiu a direção da Secco Consultoria de Comunicação.

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