Os ex-funcionários, os que ainda se mantêm ligados à empresa, especialmente os que responderam por importantes posições, como gerentes, diretores e até presidentes se sentiram chocados com a exibição de um vídeo que mostrou uma poderosa máquina dando início à demolição do primeiro prédio da fábrica que a Ford possuía em São Bernardo do Campo.

As cenas provocaram decepção e tristeza nas pessoas que trabalharam na empresa inaugurada em 1954 em evento que marcava a vitória da indústria nacional. Da ambição inicial de produzir 50 mil veículos, a fábrica atingiu um volume total maior, demonstrando o potencial do mercado brasileiro.

No dia 21 de novembro de 1958, a entusiasmada Ford havia inaugurado uma moderna fábrica no bairro do Ipiranga, onde passou a produzir uma linha de caminhões e, em 1967, incorporou a Willys Overland do Brasil, acrescentando ao seu patrimônio as instalações da fábrica de São Bernardo do Campo e ampliando a linha de produtos.

Era uma fase fervilhante, com otimismo dos fabricantes pelo veloz aumento de produção, pela transformação do automóvel em moda nacional por dar liberdade de locomoção às pessoas e alegria aos caminhoneiros com a crescente necessidade de transporte pelas modernas estradas que surgiam. Exatamente como previa Henry Ford quatro décadas antes, que considerava que a produção de veículos acelerava o desenvolvimento do País.

Nos anos 50, o sonho era simplesmente o carro, mas, rapidamente o consumidor foi ficando mais exigente e passou a desejar potência, economia, conforto, desempenho, segurança e outras virtudes.

Para atender essa nova demanda, a indústria mudou rapidamente com a introdução de novos processos e sistemas de produção, equipamentos mais eficientes e produtivos. E o estilo de vida continuou a exigir renovação constante.

A cada ano, os intervalos de modernização passaram a ser mais curtos, demandando dos fabricantes permanentes estudos, pesquisas e investimentos para não serem superados pela concorrência.

E a modernidade continuou a impor novos desafios, com modelos mais atraentes e, nos últimos anos, mais econômicos e eficientes, com ênfase na preservação ambiental e emissão zero.

A indústria hoje dedica-se a descobrir a melhor opção de propulsão, pesquisando eletricidade, gás, hidrogênio e outras fontes de energia que possam ajudar na preservação ambiental, além dos veículos autônomos.

Voltando ao tema da Ford, o momento é de tristeza e me faz lembrar uma música do grupo Demônios da Garoa que, ao perder a maloca em que viveram, e que foi demolida para a construção de um edifício, cantava que cada “táuba” que caía doía o coração.

Como tudo numa fábrica é muito maior, a letra da música deve provocar uma dor mais aguda a cada coluna ou parede derrubada. E é o que esses ex-funcionários e muitos que ainda restam sentem atualmente.

A venda da fábrica e a demolição de parte das edificações foi motivada pelos baixos resultados financeiros contabilizados pela Ford nos últimos anos o que a levou a anunciar, em janeiro de 2020, o encerramento de atividades nas fábricas São Bernardo do Campo em São Paulo; a de Camaçari, na Bahia; da Troller, no Ceará, e das instalações que ainda possui em Taubaté e, o campo de testes de Tatuí, ambos no Estado de São Paulo.

Nos 101 anos em que atuou no Brasil, a Ford sempre prestigiou o desenvolvimento do País. Montou a primeira linha de montagem de automóveis e caminhões em São Paulo; contribuiu para o desenvolvimento rodoviário, com a promoção de caravanas pelo interior do País; prestou apoio ao Marechal Rondon, que realizou viagens com um Ford Modelo T, aventurando-se pelas matas para a instalação de linhas telegráficas para modernizar a comunicação e prestigiou o Ministério dos Transportes com o reide da Integração Nacional, com viagem de automóveis por todo o território brasileiro.

Também foi a fábrica que prestigiou programas do governo para ampliação das exportações e uma das que mais se empenharam no desenvolvimento do álcool como combustível.

A tristeza do grupo que trabalhou e alguns ainda trabalham na Ford pode ser avaliado pelos comentários de Rubens Cella engenheiro e responsável pela área de produção, que comandou uma das fases de modernização da fábrica de São Bernardo do Campo. O prédio 102, um dos primeiros a serem demolidos, abrigava o, na época, avançado sistema de tratamento de chapas de aço e pintura por sistema eletroforético catódito, que protege a carroceria contra a corrosão. Após a montagem da parte metálica, por soldas das peças por uma linha de aproximadamente 170 robôs, o conjunto era encaminhado à pintura por intermédio de túneis e, depois, para a área de montagem.

Para Rubens Cella, ver a demolição da fábrica proporciona uma dolorosa sensação de perda. E resumiu sua decepção com uma frase: “para mim, é parte da demolição de minha história e de muitos sonhos de uma Ford forte e dinâmica que, como sempre, participou não apenas na produção de veículos, mas também do desenvolvimento do próprio Brasil. Deixei nesse projeto uma grande parte de minha vida. Triste de acreditar”.

*Esta e outras histórias vividas e narradas pelo jornalista Luiz Carlos Secco você pode ouvir no podcast Muito Além de Rodas e Motores. Acesse: https://soundcloud.com/user-645576547/o-triste-fim-de-uma-centenaria-marca-fabricante-de-veiculos-no-brasil

*Luiz Carlos Secco trabalhou, a partir de 1961 até 1974, na empresa S.A. O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, além da revista AutoEsporte. Posteriormente, transferiu-se para a Ford, onde foi responsável pela comunicação da empresa. Com a criação da Autolatina, passou a gerir o novo departamento de Comunicação da Ford e da Volkswagen. Em 1993, assumiu a direção da Secco Consultoria de Comunicação.

*Imagem de abertura – Foto: André Paixão/Primeira Marcha

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