Quem poderia imaginar um serviço como o Uber ou 99 há 60 anos? Mas acredito que já havia pessoas visionárias e que se antecipavam à realidade da época com total desprendimento e liberdade.

Isso aconteceu comigo, no início dos anos de 1960, ou seja, há 60 anos! E provocou muita diversão e surpresa. Mostra também que precisamos estar atentos e analisar o que o mundo nos prepara quando estamos distraídos ou interpretamos mal os gestos ou palavras que nos são transmitidos repentinamente.

Num sábado à tarde, quando deixei o apartamento em que residia no bairro de Vila Romana e saí para o trabalho no jornal, localizado na antiga sede da Rua Major Quedinho, onde depois funcionou o Diário Popular.

Uma das opções de meu itinerário era usar a Avenida Pacaembu, até chegar à rotatória em frente ao estádio e tomar a esquerda em direção à Praça Buenos Aires, com passagem em frente da FAAP e pela praça de Vila Boím. Depois, descer a rua em frente ao Mackenzie e usar a Major Sertório para, um pouco à frente, cruzar a Avenida Ipiranga e chegar ao jornal pela Rua ou Avenida São Luiz.

Ao me aproximar da rotatória em frente ao estádio, com meu primeiro carro, um DKW Vemag cinza-chumbo e teto branco, por sinal, muito bem-cuidado, parei no semáforo que estava fechado à espera da luz verde. De repente a porta traseira foi aberta por uma elegante senhora e sem me dar tempo de perguntar o que desejava, ajeitou-se e, de forma simpática, mas firme, me transmitiu: “por favor, me leve até a Aclimação”.

Naturalmente, entendi que ela havia me confundido com um taxista e como estava adiantado em meu horário para início do trabalho no jornal, decidi obedecer a ordem da simpática senhora. Fiz exatamente o caminho que cumpria diariamente para chegar ao jornal, mas passei por ele seguindo pelo Viaduto Maria Paula e Rua Conselheiro Furtado, caminho de acesso à Aclimação. Embora silenciosa, durante a viagem a mulher comentou que meu carro estava muito novo e soltou o tradicional “o senhor cuida dele muito bem”.

Após cruzar a Rua Tamandaré, a senhora pediu-me para estacionar em frente a uma residência. Antes de descer, pergunto-me pelo valor da corrida. Expliquei que não poderia cobrar porque não era um taxista, que ela entrara em meu carro por engano e eu não quis deixá-la envergonhada ou preocupada.

Inicialmente, a mulher não entendeu e voltou a perguntar o valor da corrida. Reforcei que não poderia cobrar e que a acolhi no automóvel para vivenciar uma experiência de vida. Expliquei que era jornalista, onde trabalhava e que havia gostado da oportunidade de ter tido o meu dia de motorista.

Claramente envergonhada, a mulher pediu desculpas, tentou me convencer a receber algum valor pela corrida e, ao final, levou pelo lado esportivo a confusão estabelecida.

Depois desses momentos de diversão e experiência inusitada, retomei o meu caminho para o jornal para mais um dia de trabalho. E pensar que aquela elegante senhora nem imaginava que, nas horas vagas, o seu motorista se aventura atrás dos segredos da indústria automotiva brasileira, muitas vezes dirigindo em fugas para salvar as fotos de imagens que, com a ajuda de fotógrafos, já estavam registradas.

*Esta e outras histórias vividas e narradas pelo jornalista Luiz Carlos Secco você pode ouvir no podcast Muito Além de Rodas e Motores. Acesse: https://soundcloud.com/user-645576547/uma-passageira-inesperada-e-visionaria;

*Luiz Carlos Secco trabalhou, a partir de 1961 até 1974, na empresa S.A. O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, além da revista AutoEsporte. Posteriormente, transferiu-se para a Ford, onde foi responsável pela comunicação da empresa. Com a criação da Autolatina, passou a gerir o novo departamento de Comunicação da Ford e da Volkswagen. Em 1993, assumiu a direção da Secco Consultoria de Comunicação.

N.R – Imagem de abertura – Foto: Rafael Krauss.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui