Hoje, fala-se muito nas dificuldades para se chegar à Fórmula 1 e tudo o que um piloto precisa, além de muito talento, para ter sucesso. Acredito que, em termos financeiros, nunca foi tão difícil, pois as quantias ou valores para se disputar uma temporada internacional são absurdas, mas há 50 ou 60 anos a realidade era completamente outra, assim como as dificuldades, que para os mais jovens parecem mentira, como chegar até onde tudo acontecia ou se comunicar com os empresários e donos de equipes europeias.

Tudo era diferente, mais demorado, mais “longe” e bem menos acessível. Não havia a facilidade de comunicação e relacionamento que existe agora. Além disso, a viagem de avião era tão cara que para realizar as coberturas das provas internacionais, viajávamos e ficávamos um mês fora, pois era mais barato pagar o hotel em Londres, por exemplo, ou em qualquer cidade europeia do que ir e vir de avião.

E é nesse contexto que acompanhei e participei do desafio de Émerson Fittipaldi para iniciar sua carreira na Europa. Os contatos eram poucos, as equipes com verbas bem limitadas e a preferência era por pilotos locais.

Lembro que um dos momentos mais interessantes e que deu início à caminhada rumo ao título mundial de Fórmula 1, aconteceu aqui perto, na vizinha Argentina.

No final de 1968, um grupo de amigos e admiradores de Emerson, do qual fiz parte, o acompanhou ao país vizinho para assistir à série de corridas de uma temporada internacional da Fórmula 2, para estabelecer os primeiros contatos com dirigentes de equipes europeias e organizar o programa dessa verdadeira aventura para cumprir a primeira etapa de sua bem-sucedida trajetória no automobilismo internacional.

Essas corridas na Argentina foram idealizadas e incentivadas por Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial, que era o diretor de ideias do Automóvel Clube da Argentina para o desenvolvimento do automobilismo.

No retorno ao Brasil, com as informações necessárias, Emerson estabeleceu seu plano de ação para conseguir o apoio necessário para a sonhada aventura.

As primeiras ações foram visitar, com a participação do pai, Wilson Fittipaldi, os diretores da Freios Varga e o principal diretor da Bardahl para conseguir o patrocínio necessário. Tive a satisfação de acompanhá-los e, para atender a um pedido de Wilson Fittipaldi, de procurar divulgar os nomes das empresas patrocinadoras, batizei a equipe brasileira de Emerson de Bardahl Varga. O nome pegou e deu o retorno que as empresas desejavam e que ele, Emerson, precisava.

Outro aspecto importante foi contar com o apoio de Chico Rosa, engenheiro, amigo de Emerson e que se transformou em seu braço direito para vencer a grande aventura.

Foi Chico Rosa que assumiu a missão de criar uma forma de reunir as pessoas envolvidas nessa aventura, aqui no Brasil e na Inglaterra, e conseguir o retorno de mídia que a equipe precisava para galgar cada degrau, da Fórmula Ford inglesa à Fórmula 1, passando pela Fórmula 3 e Fórmula 2.

Assim, nasceram as tardes de domingo nas quais, após cada corrida de Emerson e dos pilotos brasileiros, Chico fazia uma chamada a cobrar para mim, na Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, para garantir uma das manchetes, normalmente com as histórias sobre as vitórias de Emerson. Nessas tardes, além de Chico e Emerson, do lado de lá, reuníamos seus pais, Wilson Fittipaldi e …, seu irmão Wilsinho e diversos amigos. E o mais assíduo era Pedro Victor DeLamare e o Edgard de Mello Filho que residia em Santos, não deixava de ligar para mim no começo da noite para saber o resultado.

Foi uma caminhada pesada, mas com sabor especial porque a cada fim de semana tinham uma agradável história para transmitir e comemorar com a família e amigos em plena redação do jornal.

Nessa mencionada e importante viagem de 1968 à Argentina, vivi um momento inusitado e muito divertido. Depois dos afazeres no autódromo de Buenos Aires, saíamos para bater papo e nos divertir. Em um desses episódios, tive a oportunidade de alinhar “meu carro” ao lado de Emerson, Chico Rosa, Luiz Fernando Terra Smith, piloto da equipe Willys que havia sido um dos vencedores (em dupla com Luiz Pereira Bueno) da Mil Milhas Brasileiras de 1967, e Oswaldo Luiz Palermo, um dos grandes fotógrafos do jornalismo brasileiro, além de um grupo de argentinos.

Imaginem a minha emoção, na pista entre esses “astros”. Foi uma curta, mas emocionante experiência, ao lado desses símbolos profissionais e esportistas. Creio que nenhum jornalista brasileiro teve uma oportunidade como essa. É claro que não consegui ser páreo para eles. Mas foi um grande privilégio estar na mesma “pista” ao lado do futuro campeão inglês da Fórmula 3 e campeão mundial da Fórmula 1.

Para sorte de todos, não foi no autódromo de Buenos Aires, nem de San Juan, de Rafaela ou de Alta Gracia. Foi num parque de diversões, próximo ao Parque Palermo e do estádio do River Plate, que os torcedores do Boca Juniors chamam de gallinero. A pista foi num espaço para crianças e os carros, aqueles de bate-bate, onde também os adultos se divertem e revivem os bons momentos de sua meninice ou juventude.

*Esta e outras histórias vividas e narradas pelo jornalista Luiz Carlos Secco você pode ouvir no podcast Muito Além de Rodas e Motores. Acesse: https://soundcloud.com/user-645576547/a-dificuldade-para-se-chegar-a-elite-do-automobilismo.

* Imagem de abertura – Emerson Fittipaldi, campeão de F3 em 1969.

*Luiz Carlos Secco trabalhou, a partir de 1961 até 1974, na empresa S.A. O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, além da revista AutoEsporte. Posteriormente, transferiu-se para a Ford, onde foi responsável pela comunicação da empresa. Com a criação da Autolatina, passou a gerir o novo departamento de Comunicação da Ford e da Volkswagen. Em 1993, assumiu a direção da Secco Consultoria de Comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui