GP de Miami misturou show e negócios em doses inéditas à F-1

A capacidade dos estadunidenses em transformar qualquer evento em uma grande festa e palco de negócios ficou mais uma vez evidente com a realização do GP de Miami. Desde a insalubre marina em terra firme até a presença de uma multidão de conhecidos, desconhecidos e desnecessários guarda-costas no grid, não faltaram demonstrações de que a F-1 mudou vários dos seus conceitos.

Capacetes de futebol americano substituíram os bonés usados no pódio. Foto: Ferrari.

Toque sutil desse mega show foi ver os pilotos subirem ao pódio usando capacetes de futebol americano em lugar dos tradicionais bonés da Pirelli (foto de abertura/Red Bull), fornecedora de pneus da categoria.

Ferrari e Red Bull concentraram, mais uma vez, a disputa pela vitória. Foto: Red Bull.

Na pista, business as usual: Red Bull e Ferrari se apoderaram na disputa de lugares no pódio, onde subiram Max Verstappen, Charles Leclerc e Carlos Sainz. Sérgio Pérez ficou em quarto. A Mercedes segue trabalhando para tornar seu carro mais competitivo em relação aos rivais vitoriosos nesta temporada enquanto a alternância de pilotos na segunda metade das posições pontuáveis, reforçou a nova distribuição de forças que a categoria vive este ano.

Valtteri Bottas andou a maior parte da prova em quinto. Desgaste dos pneus o fez perder duas posições. Foto: Alfa Romeo-Sauber.

Neste departamento a Alfa Romeo-Sauber continua como o grande destaque, mesmo se o sétimo lugar de Valtteri Bottas tenha sido envolvido por alguma amargura. O finlandês andou em quinto na maior parte das 57 voltas da prova, mas a dez voltas da bandeirada escapou da parte limpa da pista e não conseguiu evitar a ultrapassagem de George Russell (quinto) e Lewis Hamilton.

Esteban Oco bateu no TL-3, largou em último, chegou em oitavo. Foto: Alpine.

Esteban Ocon salvou a honra da Alpine ao terminar em oitavo, resultado que ganha importância depois que o franco-catalão ter sido obrigado a largar em último, consequência de um acidente que o impediu de participar da prova de classificação. O tailandês Alex Albon mais uma vez surpreendeu: a bordo de um Williams FW43 tão acima do peso mínimo a ponto de a equipe ter considerado abolir a pintura aplicada sobre o chassi do carro, ficou em nono. Lance Stroll fechou as posições pontuáveis.

Promover um GP de F-1 é uma operação complexa e cara, consequência do modelo imposto por Bernie Ecclestone durante as quatro décadas em que controlou os caminhos e o destino da categoria. Apreciador de luxo e sofisticação, o empresário inglês moldou valores focados em mercados de alto poder aquisitivo e consolidou o posicionamento mercadológico do evento como um produto exclusivo e, consequentemente, muito caro.

Casa cheia: GP de Miami foi sucesso de público e de negócios. Foto: Red Bull.

O caminho natural para a Liberty Media, empresa que adquiriu de Ecclestone os direitos comerciais da F-1, aumentar o faturamento e recuperar o investimento de bilhões de dólares seria expandir a política de negociação já estabelecida. Isso acontece de uma forma que destaca as diferenças culturais entre europeus e norte-americanos. Pista famosa nos anos 1950, o circuito de Goodwood promovia seus eventos com o slogan “no crowd but the right crowd”, algo que soa como um aglomerado de pessoas sofisticadas e não uma arquibancada geral de estádio. Miami 2022 reforçou ao mundo o que um crescente número de novos milionários e alguns bilionários buscam: mostrar-se ao mundo ao mesmo tempo que esnoba o contato com outros humanos.

Charles Leclerc segue liderando o Campeonato Mundial de Pilotos, mas Ferrari precisa reagir. Foto: Ferrari.

Ex-piloto de F-1 e grande rival de Ayrton Senna na F-3, Martin Brundle é hoje contratado da Sky para atuar como repórter de grid e comentarista. Na primeira função o inglês deve entrevistar pilotos e personalidades momentos antes da largada, algo que seus colegas de profissão aceitam e que aqueles que não o conhecem rejeitam. Em Miami, tal como aconteceu no GP de Austin no ano passado, Brundle novamente teve problemas ao abordar celebridades de categorias e níveis diversos. Eu me lembro que em 1981, em Las Vegas, Steve McQueen caminhava pelo estacionamento do hotel Caesar’s Palace cercado por nada menos de oito seguranças. Os guarda-costas andavam dispostos em uma formação quadrangular que isolava o ator de qualquer contato com meros humanos.

Certo ou errado, o GP de Miami escancarou os valores do show business norte-americano e veio para ficar: em 2023 Las Vegas volta ao calendário, desta vez com uma corrida noturna em um circuito que usa as principais avenidas da cidade de Nevada. Cabe à F-1 saber explorar as possibilidades que isso oferece para continuar crescendo e lucrando com tudo isso.

O resultado completo do GP de Miami você encontra clicando aqui.

*Imagem de abertura – Verstappen venceu a terceira do ano e agora está 19 pontos atrás de Leclerc, que soma 104. Foto: Red Bull.

* Wagner Gonzalez é jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 350 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. Atualmente é diretor de redação do site Motores Clássicos. Siga o Beegola pelo Instagram

 

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