Nos tempos em que menores podiam trabalhar honestamente, lá na General Motors havia um grupo de garotos que engraxavam sapatos por toda a fábrica. Eram filhos de funcionários que se candidatavam a receber uma “graninha” para fazer este trabalho. E a exigência era que estudasse e fosse bom aluno, nunca faltasse às aulas. Não fosse assim, estava fora.

Ganhavam uniforme, a caixa de engraxate e equipamento (escovas, graxa marrom, incolor e preta, panos….) e lá iam eles em busca de clientes pela fábrica. Quem estudava pela manhã, trabalhava na GM à tarde. E vice-versa. O dinheiro, ganho honestamente, era usado para as pequenas despesas do jovem ou também para ajudar em casa. Era um trabalho em que os jovens nunca eram maltratados ou menosprezados. E vários deles, chegando na idade apropriada, conseguiam trabalhar na empresa. Alguns chegaram a ser gerentes na General Motors.

Sapato grande paga mais

Cliff Vaughan, o presidente da GM, entre 1983 e 1987 era extremamente simpático e um dos clientes do garoto que atuava no nosso andar, no prédio da empresa, em São Caetano do Sul. Além da simpatia, era grande pra caramba. Tinha pelo menos 2 metros de altura. E, para manter o equilíbrio, seus pés calçavam 48 ou 49, se não fosse 50. Ou mais.

Um dia, quando engraxava meus sapatos, perguntei ao garoto se o presidente pagava os mesmos 3 dinheiros (sabe-se lá qual era a moeda da época, mas acho que era Cruzeiro) que eu, com um pé muito menor.

– Sim, ele paga o mesmo que vocês. Não tem diferença no preço.

Ainda, que em tom de brincadeira, disse que aquilo era injusto. Com aquele sapatão, o Cliff (que, infelizmente, faleceu em 2010), tinha que pagar mais.

Argumentei que ele usava mais tempo, mais graxa e precisava de mais daqueles pedaços de celulose para proteção das meias. Daí, não havia porque pagar o mesmo que os outros clientes do andar.

– Explique para ele e diga que precisa pagar mais por gastar mais.
– Será? E se ele brigar comigo e não quiser mais engraxar?
– Qual o que, o Vaughan é um cara muito legal. Tenho certeza que ele vai entender a situação e pagar uma taxa extra para você.

Com olhar ressabiado e garoto saiu da minha sala.

Três dias depois soube o resultado do meu conselho ao jovem engraxate.

Cliff Vaughan entrou na minha sala com cara de bravo e disse em perfeito Português, mas não abandonando o seu baita sotaque de Cincinnati (Ohio/EUA):

– Chicolelis, você está me fazendo gastar mais dinheiro.

E rindo explicou que agora estava pagando a mais pela engraxada, porque seu sapato era muito maior que a média do pessoal da fábrica.

– E por que acha que sou o responsável por isso? Perguntei em tom de brincadeira.
– Porque foi você que disse ao nosso engraxate para me cobrar mais caro.

Demos boas risadas. Ele voltou para seus afazeres na presidência e eu para meus releases.

*Em função do Estatuto do Menor e da Criança, a GM encerrou as atividades dos engraxates em suas fábricas. Com isso, os jovens, como disse anteriormente, perderam a “graninha” para suas idas ao cinema, comprar coisas de sua preferência e até ajudar em casa. Exageros de uma Lei criada sem o menor cuidado e que prejudicou um monte de jovens que faziam um trabalho honesto, sendo obrigados a manter um bom nível na escola. AGORA, MUITOS JOVENS, QUE TRABALHAVAM HONESTAMENTE, HOJE TRABALHAM PARA O TRÁFICO. Este é o resultado de Leis criadas sem a atenção necessária.

*chicolelis – Jornalista com passagens pelos jornais A Tribuna (Santos), O Globo e Diário do Comércio. Foi assessor de Imprensa na Ford, Goodyear e, durante 18 anos gerenciou o Departamento de Imprensa da General Motors do Brasil. Fale com o Chico: chicolelis@gmail.com. **O  desenho é um presente do Bird Clemente para o chicolelis, que tem no ex-piloto, seu maior ídolo no automobilismo.

 

 

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