Nos anos de 1980, quando trabalhava na Ford, enfrentei um problema com um automóvel Del Rey, que tirou meu sossego por alguns meses. Esse carro, projetado por engenheiros brasileiros, extremamente luxuoso na versão Ouro, era utilizado no programa de testes com jornalistas e demonstração com personalidades. Realmente era um carro muito bonito, pintado na cor azul metálico que em dias de sol brilhante acentuava a sua beleza. Seu painel de instrumentos era um show e até ganhou elogios de uma repórter da revista Claudia que o considerou um verdadeiro vídeo game.

No desenvolvimento desse programa de teste e demonstração o automóvel foi cedido ao importante jornalista Claudio Carsughi, um nobre profissional que comenta futebol e corrida de automóveis com muita sabedoria. Durante os dias em que usou o automóvel, foi surpreendido por uma pane e o motor deixou de funcionar em plena Avenida Juscelino Kubitschek no horário de maior fluxo de veículos. Imaginem Carsughi, sempre um modelo de elegância, em terno de grife, empurrando o automóvel do meio da avenida para junto da calçada para não causar prejuízos ao trânsito. Ainda bem que alguns solidários funcionários de uma empresa do local deram uma ajuda a Claudio para amenizar a sua decepção e desconforto.

De lá mesmo, telefonou para mim, contando a desagradável história, deixou a chave do carro com os rapazes da loja e recorreu a um táxi para regressar à sua residência. Naturalmente, decepcionado com o Del Rey, um legítimo modelo Belo Antonio.

Ao chefe da garagem da Ford, pedi atenção e uma rigorosa inspeção fazendo uso dos modernos equipamentos disponíveis e acompanhado pelos mais respeitados profissionais da empresa. Mais alguns episódios voltaram a acontecer sem que os renomados mecânicos e os mais avançados equipamentos conseguissem identificar o problema.

Após nova e rigorosa revisão o jornalista Paulo de Aquino, do jornal O Estado de S. Paulo, pediu-me um carro para realizar uma viagem com a família e, eu, confiando nas informações sobre uma nova revisão e por falta de outro veículo, arrisquei a ceder o flamante Del Rey azul metálico. Ao regressar da viagem e para agradecer a gentileza, foi pessoalmente à Ford para a devolução do automóvel e me fez um pedido: desejava adquirir aquele carro para seu uso pessoal.

Tomei as providências necessárias e não tive coragem de alertá-lo sobre o problema para que não perdesse a confiança no automóvel. Mais uma vez, confiei nos mecânicos da empresa. O jornalista comprou o veículo e, meses depois, resolvi perguntar se estava feliz com o automóvel. Me informou que uma vez o carro teve o motor desligado numa tarde de trânsito complicado. Mas que chamou o Onofre, mecânico de uma pequena oficina próxima da Rua Guaicurus, no bairro da Lapa, que descobriu um fio no porta-malas do automóvel com um pedaço sem proteção da capa de plástico por desgaste, encostado no assoalho do porta-malas, roubando corrente elétrica da bateria. Moral desta história: mais vale um profissional competente do que um grupo com títulos e diplomas para enfeitar as paredes.

*Esta e outras histórias vividas e narradas pelo jornalista Luiz Carlos Secco você pode ouvir no podcast Muito Além de Rodas e Motores. Acesse: https://soundcloud.com/user-645576547/mecanico-de-bairro-melhor-que-profissional-de-montadora

*Luiz Carlos Secco trabalhou, a partir de 1961 até 1974, na empresa S.A. O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, além da revista AutoEsporte. Posteriormente, transferiu-se para a Ford, onde foi responsável pela comunicação da empresa. Com a criação da Autolatina, passou a gerir o novo departamento de Comunicação da Ford e da Volkswagen. Em 1993, assumiu a direção da Secco Consultoria de Comunicação.

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