Os brasileiros que se lembram de Ayrton Senna na McLaren identificam a reedição da renovação de contrato entre ambos em 93 na negociação que embrulha a continuidade ou não de Lewis Hamilton na equipe Mercedes

Obstáculos na renovação do contrato de Lewis Hamilton e a equipe Mercedes. Foto: Mercedes.

Os brasileiros que se lembram da última temporada de Ayrton Senna na McLaren, em 1993, identificam claramente uma reedição da renovação de contrato entre ambos na negociação que embrulha a continuidade ou não de Lewis Hamilton na equipe Mercedes. Naquele ano o brasileiro acabou acertando sua participação no campeonato na base da corrida a corrida a um valor inédito para a época: US$ 1 milhão por GP. Para uma equipe tão organizada como a Mercedes e administrada com mão de ferro por Toto Wolff chega a surpreender como um contrato tão importante se arraste por quase um ano. Valor e duração do contrato representam os maiores obstáculos nessa novela na qual não faltam vilões, há um ou dois mocinhos e alguns valores que adicionam obstáculos em um roteiro que tem data específica para terminar, como o próprio Wolff admite: “A única data-limite que existe (para resolver esta questão) é o GP de abertura da temporada, no Bahrein.”

Lewis Hamilton ainda não decidiu se este ano fica na pista ou nos boxes. Foto: Mercedes.

Enquanto o dia 28 de março não chega, advogados da Mercedes e de Lewis Hamilton digladiam-se através de reuniões via internet para obter as melhores vantagens a cada lado. Se até outubro as vantagens eram praticamente privilégio do inglês, nem mesmo o fato de ter sido condecorado com o título de “sir” amainou o revés provocado pela atuação de George Russell na penúltima etapa de 2020 e a decisão da fábrica alemã em cortar gastos mundo afora.

Toto Wolff sabe quanto vale e quanto custa ter Lewis Hamilton na equipe. Foto: Mercedes.

Nos últimos dias Wolff, que recentemente foi identificado como infectado pelo covid-19, declarou à emissora austríaca ORF que “nunca usou e nunca usará George Russell como forma de pressionar Lewis Hamilton”. Por mais que isso possa ser verdade é difícil levar tal afirmação 100% a sério diante das implicações a presença ou a ausência de um heptacampeão mundial implica em uma equipe de F-1.

Primeiro ponto: ter Hamilton em um dos seus carros valoriza os contratos com os patrocinadores, parceiros e fornecedores de tecnologia. Para que estes financiadores do projeto capitalizem seus investimentos é preciso definir uniformes dos pilotos e do pessoal da equipe (o que inclui desenhar e fabricas macacões, camisetas, bermudas, jaquetas, calçados, etc) para cerca de 250 profissionais, criar, produzir e aplicar a programação visual dos carros de corrida e de transporte e do motorhome, planejar, orçar e programar ações de marketing e publicidade ao redor do mundo e vários outros itens. É óbvio que ter a presença de um heptacampeão mundial significa cobrar preços astronomicamente mais alto do que os praticados com sua ausência.

George Russell é o nome cotado para eventualmente substituir Lewis Hamilton. Foto: Mercedes.

Igualmente é óbvio que num período em que o grupo Daimler está reduzindo sua força de trabalho e fechando fábricas ao redor do mundo, entre elas a de Iracemápolis (interior do estado de São Paulo) fica difícil justificar o salário anual de dezenas de milhões de dólares para um piloto, não bastasse o fato de ser um valor maior do que o pago ao próprio presidente da empresa. Junte-se a isso o fato de que a equipe Mercedes de F-1 existe como uma unidade de negócios e, como tal, deve produzir lucro e não gerar prejuízo aos seus três acionistas: o grupo Daimler, Toto Wolff e Sir James Arthur Ratcliffe, executivo-chefe da Ineos, uma das patrocinadoras da equipe.

Diante de tudo isso ainda soa estranho o trabalho da equipe durante a penúltima etapa de 2020, quando George Russell substituiu Lewis Hamilton, largou em segundo (atrás de Valtteri Bottas), liderou a corrida e só não subiu ao pódio porque o time montou pneus errados em seu carro, um erro crasso e próximo do inacreditável para os padrões de eficiência pregados e praticados por Toto Wolff. É difícil crer que Lewis Hamilton não continue acelerando um carro da Mercedes na F-1. Difícil, porém, é diferente do impossível e a cada dia que passa sem que as partes entrem em acordo com relação à duração e ao valor do contrato, menos distante fica o horizonte de uma temporada sem o maior vencedor da história da categoria. A ausência do campeão tampouco seria algo inédito na história do time que desde 2014 domina a categoria: em 2016 o alemão Nico Rosberg anunciou que abandonava as pistas dias depois de conquistar o título da temporada…

* A coluna “Conversa de pista” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
* Wagner Gonzalez é jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 350 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. Atualmente é diretor de redação do site Motores Clássicos. Siga o Beegola pelo Instagram.

 

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